Quem Deve Ensinar Xadrez?

         Nos últimos anos tem sido observado um considerável desenvolvimento no ensino e na prática do xadrez. Este fenômeno se deve principalmente ao número cada vez maior de escolas que têm incluído o xadrez como uma de suas atividades pedagógicas – algumas o fizeram como disciplina formal; outras, a maior parte, como atividade extracurricular ou exclusivamente como modalidade em competições desportivas.

         Ao se introduzir o xadrez como atividade escolar, depara-se com algumas questões fundamentais, tais como: Que freqüência devem ter as aulas? Qual a carga horária adequada? Deve-se avaliar a aprendizagem? Como avaliar? Quem está apto a ensinar?

         Esta última é a questão de que nos ocuparemos no presente texto. Sem entrar na discussão que ora se trava em torno da questão do xadrez enquanto esporte e, conseqüentemente da exigência de se ter formação em educação física para ministrá-lo – o que é, no mínimo, questionável – procuraremos estabelecer alguns parâmetros a fim de traçar um perfil de quem deve assumir a prática do ensino de xadrez na escola.

         Há dois pontos de vista mais relevantes a confrontar: primeiro, o daqueles que sustentam que para se ensinar xadrez é necessário, antes de tudo, ser um forte e experiente jogador; segundo, o ponto de vista dos que preconizam a necessidade de se ter, principalmente, formação pedagógica e experiência em educação – a par de conhecimentos técnicos básicos – para se estar apto a ensinar xadrez.

         Embora a oposição desses pontos de vista esteja aqui estabelecida no nível de ensino elementar, será proveitoso para a elucidação da questão proposta fazer um paralelo com o treinamento enxadrístico de alto nível.

         Ao questionar sobre os requisitos necessários a um treinador de xadrez, o famoso Grande Mestre e teórico soviético Aleksander Kotov (1913-1981) propõe algumas perguntas tais como: “Que tipo de qualificação e formação devem ser requeridas?”, “O treinador deve ser um forte jogador que já não participe mais, pela idade, dos torneios de primeira linha?” ou “Esta tarefa pode ser assumida por um jovem mestre?".

         Para Kotov, há que se distinguir o “segundo” (o analista que acompanha o jogador durante determinada competição) do treinador (“aquele que convive com o seu pupilo no dia-a-dia dedicando grande atenção ao trabalho de preparação do enxadrista”).

         Kotov cita alguns exemplos de treinadores que também atuavam como enxadristas de competição, como Mark Dvoriétski (treinador de vários Mestres e Grandes Mestres) e Viatcheslav Ragozin (treinador do ex-campeão mundial Botvínnik).

         Essa condição de combinar a atividade de treinador com a de jogador de competição de alto nível, quase todos hão de concordar que seja a ideal. Segundo Kotov, o próprio Dvoriétski afirma: "Gosto de me defrontar no tabuleiro com fortes jogadores, e minhas impressões como jogador prático podem-me ser úteis no trabalho como treinador”.

         Todavia nem sempre é possível contar com treinadores que ao mesmo tempo sejam competidores de alto nível. Seria tal impossibilidade um prejuízo para o desempenho do treinador? A princípio parece evidente que ‘não se pode ensinar o que não se faz’. Entretanto podem ser observados exemplos que contradizem esse pensamento.

         Em sua obra, Kotov discorre sobre a “Escola de Xadrez de Kart”, dirigida pelo treinador Victor Emmanuelovitch Kart. De acordo com Kotov, Kart é um fenômeno surpreendente no mundo enxadrístico, pois embora não tenha sido um jogador de destaque nem tenha se aproximado do nível de um Grande Mestre e nem sequer obtido o título de Mestre, Kart foi responsável pelo desenvolvimento de todo um grupo de destacados Grandes Mestres, que espalharam pelo mundo a fama da “Escola de Lvov”.

         Como exemplos, o autor cita Aleksander Beliávski, Iossif Dórfman, Adrian Mikhaltchishin, Marta Litínskaia, etc. Qual seria, então, o segredo do sucesso de Kart? Kotov cita o próprio treinador: “É provável que a característica principal de nosso trabalho seja o desenvolvimento do caráter e do gosto pelo trabalho árduo. Somente as pessoas de caráter forte podem obter resultados competitivos de destaque”. Mas não é só isso, Dvoriétski – ainda segundo Kotov – “chamou a atenção sobre o êxito conseguido por Kart ao desenvolver os melhores aspectos de seus discípulos, apesar de suas diferentes personalidades e estilos de jogo. Posso confirmar isso – continua o autor – e devo expressar minha admiração pelo espírito de amizade, compreensão e respeito mútuo que está presente nesta famosa instituição”.

         Kotov também considera surpreendente o sucesso obtido pela “Escola de Xadrez de Karseladze”, situada na Geórgia, famosa pela formação de grandes representantes do xadrez feminino, como as campeãs mundiais Nona Gaprindashvili e Maia Tchiburdanidze. Vakhtan Karseladze, responsável pela escola, não era um jogador de destaque. Ele também contribuiu na formação do Grande Mestre georgiano Tomaz Georgadze, como nos conta Kotov.

         A partir desses depoimentos, podemos verificar que há outras qualidades, que não a competência como jogador, determinantes para o êxito de um treinador em sua missão.

         Todo esse questionamento acerca das aptidões do treinador de xadrez pode ser projetado – obviamente guardadas as devidas proporções – no âmbito do ensino do xadrez escolar. Verificamos que não só as questões levantadas, mas também os pontos de vista em oposição se equivalem, de modo que podem ser ilustrados no esquema apresentado a seguir.

         Essa correspondência não é meramente casual. Se nos concentrarmos no âmbito do ensino de xadrez no nível escolar, também encontraremos exemplos que demonstram a obtenção de melhores resultados pedagógicos, e muitas vezes também competitivos (embora este não seja o principal objetivo do xadrez escolar), quando o responsável pelo ensino de xadrez é uma pessoa com formação pedagógica e experiência em educação e não necessariamente um jogador de competição.

         De qualquer forma, para que sejam alcançados os resultados esperados, é preciso que o profissional tenha amor pelo xadrez e gosto em ensiná-lo, competência pedagógica e desempenho didático satisfatório.

         Isso pode ser objetivado em ações tais como: determinar com clareza os objetivos; preparar bons materiais; motivar o aluno; buscar desenvolver “o caráter e o gosto pelo trabalho árduo” (Kart) e “um ambiente de amizade, compreensão e respeito mútuo” (Kotov).

Fernando Antonio de Barros Madeu